A morte, como parte da vida e como o fim de um ciclo de vida, acontece nos idosos de forma, às vezes, súbita ou fortuita, após uma doença rápida e fulminante. Também pode vir como conseqüência de uma queda ou de um pequeno acidente. Porém, numa boa parte das vezes, a morte chega após uma enfermidade longa, sem resposta à tratamentos curativos, por uma falência geral de todos os órgãos, onde o idoso fica cada vez mais fragilizado, e todos têm a intuição que o fim está próximo. Raramente, a causa da morte, nestes idosos, é por somente um tipo de doença.
As principais doenças que levam o idoso a este quadro de terminalidade, de maneira lenta e incapacitante são:
As patologias neurológicas: demências e os acidentes vasculares cerebrais
As neoplasias (câncer)
As doenças cardíacas e pulmonares
A insuficiência renal crônica
Não podemos perder de vista que os objetivos do tratamento de um idoso em fase final de vida, por doença, consistem em aliviar os sintomas, buscando melhorar, na medida do possível, seu bem estar físico e psicológico. Os esforços da equipe de saúde e da família serão focados no idoso e não na doença. Da doença mesmo, buscar aliviar principalmente os sintomas.
Dito isso acima, nota-se que temos, como profissionais de saúde, de buscar uma mudança em nossas atitudes e padrões de trabalho e mentalidade. Estamos acostumados a diagnosticar, tratar, curar e “dar alta”. Quando não temos sucesso, quando o fracasso na luta contra a doença aparece, somente falamos que “não há mais nada a fazer”. É aí que deve haver uma mudança de paradigma na atuação do profissional de saúde. Nestes casos, devemos abrir nossos corações para acolher, escutar e estar com o idoso… simplesmente ficar ao lado dele e de sua família!
Nas fases mais avançadas, os idosos podem estar mais debilitados, fragilizados e com o nível de atenção e consciência reduzidos, sendo até incapazes de ingerir alimentos por via oral. A falta de um aporte ideal de alimentação e de refeições que não foram feitas, devido a recusa ou sonolência do idoso, traz uma grande angústia para a família e para a equipe médica. Recorrer a dieta enteral através de sonda, bem como a hidratação venosa somente em casos selecionados e criteriosamente avaliados, não servindo de rotina para todos os idosos e para todas as situações de inapetência.
Lembrar que hidratação através de soros pela veia pode levar à sobrecarga de líquidos no organismo, piorando a função do coração e causando o que chamamos de dispnéia, ou seja, respiração difícil e rápida, por excesso de líquidos no pulmão.
Atualmente, é impensável deixar que o idoso tenha sintomas incontroláveis de náuseas, enjôos, falta de ar, mal-estar e DOR. O arsenal terapêutico é imenso e a medicina pode minimizar estes sintomas na maioria dos casos. Não deixe de conversar com os médicos a respeito, e não aceite um “é assim mesmo” como resposta!
Um exemplo muito comum a ser dado é o paciente em fase terminal de doença de Alzheimer, que provavelmente pode apresentar como evento final (o que causará diretamente a morte) uma pneumonia, uma infecção generalizada, problema cardíaco ou derrame. Conhecemos vários idosos que, acometidos por problemas cardíacos ou respiratórios graves, foram levados para o hospital (se já não estavam internados) e de lá para a UTI. Imaginemos a cena: seu familiar em fase final de demência, com pneumonia grave, com poucas chances de sobreviver, sendo levado para a UTI. Os médicos colocarão um tubo na garganta do idoso, que será ligado à uma máquina que irá respirar por ele. Irá ser administrado antibiótico ainda mais potente e caro. Irá ser alimentado por uma sonda gástrica. A urina irá também sair por outra sonda colocada na uretra até à bexiga. Nestas condições, o idoso poderá ficar vivo durante dias ou até semanas. Se perguntarmos aos médicos quais as chances de sobrevivência, eles dirão que são remotas, mas que estão fazendo tudo que está ao alcance de suas possibilidades!
Este paciente certamente irá à óbito sem a presença de sua família, sem o carinho de seus amados. Morrerá como um número (paciente do leito tal), na hora que a medicina fracassar. Muito triste, não?
Temos, sim, condições de escolher o que será melhor para nós e para os nossos familiares. O que será mais humano. Um velho ditado sobre o cuidado com o paciente diz que devemos cuidar sempre, curar quando possível e jamais abandonar! Levar o idoso com demência, em fase terminal de doença, para a UTI, certamente irá parecer abandono. Só se prolonga a vida (é vida?), tentando afastar a morte inevitável. Não seria melhor o idoso descansar?
Dissemos que a doença de Alzheimer é uma doença familiar, onde todos os familiares convivem e compartilham o sofrimento de ter seu amado nestas condições. Se a família não é incluída nas decisões de tratamento e na escolha de sua partida, tudo que foi investido em cuidado poderá se perder. Damos um longo adeus nos anos finais de sua vida, e no momento derradeiro, ficamos ausentes.
Converse com todos os familiares e com o médico à respeito do que estamos falando. Não deixe para a última hora a decisão de como se deve agir nas emergências, na piora da doença. Pense em qual poderia ser a vontade do idoso. Empregar todos os recursos médicos disponíveis para prolongar a vida, ou não usá-los e ter uma morte mais digna ao lado de seus familiares? Há uma grande diferença entre salvar uma vida e não deixar que a morte sobrevenha (fase terminal de doença e de vida).
Para finalizar, contaremos duas histórias verdadeiras, mas com nomes trocados, preservando a identidade dos idosos e de suas famílias.
JOÃO
Era um solteirão convicto, muito admirado em sua cidade, sempre ajudando a quem precisasse. Quando foi acometido pela doença de Alzheimer, seus familiares contrataram os melhores cuidadores profissionais. Por ser um homem de muitas posses, sempre teve todos os melhores cuidados que o dinheiro podia comprar: os melhores médicos, os melhores hospitais e remédios. Já se encontrando em fase final de doença, começou a apresentar pneumonias de repetição. Até que na última pneumonia mais grave, teve dificuldades respiratórias e foi levado para a UTI. Lá colocaram um tubo na garganta e o conectaram a um respirador artificial mecânico. Como a oxigenação cerebral foi precária, devido à pneumonia, João entrou em coma profundo. Ficou nesta situação por várias semanas, vindo a falecer devido a infecção generalizada, causada também por feridas profundas nas nádegas e nas costas. Sozinho.
JOSÉ
Quando o diagnóstico de Alzheimer foi feito, toda a família de José ficou muito abalada, pois era bom pai e marido carinhoso. Apesar da esposa assumir todo o cuidado, os filhos a ajudaram muito, fazendo com que o fardo não fosse mais pesado ainda. Um dia o médico de José tocou no assunto do possível fim que estava se aproximando, por ocasião de um internamento por infecção renal severa. José encontrava-se em fase avançada de demência, mal conhecendo a esposa e filhos, gritando muito durante a noite. A conversa do médico girou em torno das possibilidades de decisão, caso ele piorasse muito e corresse risco de vida: iria para a UTI ou não? No início, os filhos ficaram até chocados com a franqueza do médico, mas com muita conversa, acabaram entendendo a colocação dele. Foram consultar também a opinião da mãe e por fim decidiram que não o levariam para a UTI. Pensaram na vontade do pai de ficar ao lado de todos, nos momentos derradeiros. E assim aconteceu. José foi para a casa, já melhor da infecção no rim, porém não demorou a piorar, pois sua resistência estava muito baixa e a infecção voltou mais forte ainda. Retornou ao hospital, apresentando piora da infecção, que se alastrou por todo organismo. Por fim, José entrou em coma. Como a família e o médico já haviam combinado, José não foi levado para a UTI. Ele recebeu todos os cuidados paliativos no quarto em que ficara internado, com a esposa o tempo todo de mãos dadas com ele. Finalmente, quando a sua respiração cessou e sentindo que tinha falecido, o filho mais velho chamou a enfermeira, relatando o ocorrido. Também telefonou para o médico, dizendo-lhe que o pai descansara. Em família.